domingo, junho 24, 2012





sexta-feira, junho 22, 2012


segunda-feira, junho 11, 2012

segunda-feira, maio 28, 2012

sexta-feira, maio 25, 2012

Filosofia


Mas o que queremos da vida? É a vida? O que se procura em cada segundo para se perder em cada segundo? O tempo, assim de nada nos serve.
Um dia, dando por nós próprios, perguntamo-nos o que fizemos, por onde andamos, as cidades e casas que percorremos, sem que uma resposta nos satisfaça. A vida, então, limita-se a ser o que fez de nós, sem que o tenhamos desejado, e nada pode ser feito para voltar atrás, nem para restituir os passos trocados de direcção, as frases evitadas no último extremo, o olhar que se desviou quando não devia. Ah, sim – e o amor? É isso que queremos da vida? É verdade: cada um dos abraços que se deram, contando cada instante; o rosto lembrado no auge do prazer, quando um súbito sol desponta dos seus lábios; os cabelos presos nas mãos como se delas prendesse o feixe da eternidade….Assim, a vida poderá ter valido a pena. É o que fica: o que nos foi dado e o que damos, sem que nada nos obrigasse a dar ou a receber; o puro gesto do acaso na mais absoluta das obrigações. Então, volto a perguntar: que outra coisa queremos da vida?
 
Nuno Júdice in Cartografia de Emoções


quinta-feira, maio 24, 2012

terça-feira, maio 01, 2012

sábado, abril 28, 2012

quarta-feira, abril 04, 2012

segunda-feira, abril 02, 2012



...sou uma espécie de vampiro
e quando sobre ti me atiro
é pra saborear um pouco do teu sangue!
é só pra beber gota a gota o teu sangue!


quinta-feira, março 22, 2012

:)

já não tenho pena, sei esperar

Lisboa


No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes.

Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões.

Acenavam através das grades.

Gritavam que lhes tirassem o retrato.

"Mas aqui!", disse o condutor e riu à socapa como se cortado ao meio,

"aqui estão políticos". Vi a fachada, a fachada, a fachada

e lá no cimo um homem à janela,

tinha um óculo e olhava para o mar.

Roupa branca no azul. Os muros quentes.

As moscas liam cartas microscópicas.

Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa:

"será verdade ou só um sonho meu?"



Tomas Tranströmer (tradução de Vasco Graça Moura)
Prémio Nobel da Literatura 2011

terça-feira, março 20, 2012

quinta-feira, março 15, 2012

sexta-feira, março 02, 2012

Poema do desamor total

Hoje é daqueles dias em que a felicidade poderá vir de um desconhecido, somente. Um coleccionador de caricas ou bonés que venda meias e chinelos. Um artista com 80 dedos de anos ossudos, portador de 95 anos de resistência ao inóspito dos dias, com um - Bom-dia vida! Um carteiro da Patagónia que traga as últimas notícias do sul.

Somente um desconhecido não seria intragável. Os conhecidos sabem sempre a qualquer coisa: a conhecidos. E os meus dias desejam mistérios a sós. O mundo está já muito cheio de tudo e o meu corpo não pode dar abrigo, nem se pode abrigar. Quer sejamos bem ou mal comportados, egoístas ou altruístas, filhos de Deus ou do Demónio, a chuva cai sempre em algum sítio. Não é a gravidade dos assuntos que faz a chuva cair. A Terra é que não quer saber. E de que me vale revoltar contra os actores, que só sabem ser o que não são. De que me vale revoltar contra o palco que fui para que outros pisassem em plena actuação? Erguem o queixo para a plateia que se estende à sua frente e a possessão brilha de desejo nos seus olhos. Mas mais cedo ou mais tarde todos percebemos, aterrorizados, que somos ora actores ora plateia. Sempre personagens de nós mesmos, eternamente buscando os desconhecidos, os mistérios, os inóspitos lugares da alma que se escondem nos sótãos. E também sempre os espectadores mais cínicos, lamentando a inércia da vida.

Foi um coração partido nas lajes da camponesa. Foi um jarro quebrado na ida à fonte. Foi um uivo perdido de um cão longínquo.

Foi chorar a gravidade dos assuntos. Foi ter a visão de não se ter mais nada para dar.

Como uma casa vazia habitada só de bichos.
De bichos do acaso ou do destino. Em todo o caso, bichos.